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Aposta do BC para ajudar a reduzir juro bancário, fintechs crescem, mas ainda têm parcela pequena do crédito

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Brasil registrou nos últimos meses um aumento expressivo no número de "fintechs", como são chamadas as pequenas empresas (startups) de tecnologia que atuam no setor financeiro e oferecem, por exemplo, contas digitais e crédito pela internet. Essas empresas são uma aposta do Banco Central para aumentar a concorrência no mercado de crédito e estimular uma queda mais rápida dos juros bancários.

Criada em 2017, a Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs) terminou o ano passado com 250 associadas. Em abril de 2018, já contava com 343. De acordo com a entidade, o ritmo de crescimento das empresas do setor no Brasil é ainda maior: 300% ao ano, em média.

Apesar, disso, o peso das fintechs no mercado de crédito ainda é baixo. De acordo com o Banco Central, elas detém somente 0,3% do estoque de empréstimos concedidos no país, que somava R$ 3,6 trilhões em fevereiro.

Em países que contam com esse mercado mais desenvolvido, como no Reino Unido e Estados Unidos, o estoque de empréstimos das fintechs também não chega a 1% do crédito bancário total, ainda segundo o BC.

Regulamentação
Com o objetivo de permitir a expansão do setor, o Conselho Monetário Nacional (CMN) deve publicar nesta quinta-feira (26) a regulamentação das atividades das fintechs. Entre as medidas esperadas está a permissão para que elas atuem de maneira desvinculada de bancos.

Isso significa que as fintechs deverão passar a poder, por exemplo, manter contas de pagamentos para seus clientes e a utilizar recursos próprios na concessão de empréstimos - hoje elas só podem fazer essas operações com dinheiro da instituição financeira a que estão vinculadas.


Outra mudança mudanças que devem vir com a regulação são:

acesso das fintechs ao Sistema de Informações de Crédito do Banco Central (SCR), um instrumento de registro e consulta de dados sobre as operações de crédito, avais e fianças prestados e limites de crédito concedidos por instituições financeiras a pessoas físicas e jurídicas no país. Com isso, poderão ter mais informações sobre seus clientes.
possibilidade de adoção pelas fintechs de um mecanismo de empréstimo direto entre pessoas físicas e empresas, conhecido como "peer-to-peer" (ponto a ponto). Esse sistema é feito hoje por intermedio de uma plataforma eletrônica ligada a instituições financeiras.
"Todo mundo vai poder entrar no 'peer-to-peer'", explicou Diego Perez, da ABFintechs. De acordo com ele, além de mecanismos para garantir a segurança das operações, como checar se o dinheiro usado tem origem lícita, o sistema vai direcionar os recursos do investidor de acordo com seu perfil e disposição para assumir riscos.

Segundo Perez, a expectativa é de que os participantes possam colher taxas de retorno para seus investimentos superiores às pagas atualmente em renda fixa, de até 130% do CDI, e que os tomadores possam conseguir juros menores do que aqueles cobrados pelos bancos.

Potencial para crescimento
Os dados internacionais mostram que as fintechs ainda têm potencial para crescimento no mercado de crédito. Por isso o BC acredita que elas podem ajudar a aumentar a concorrência num setor altamente concentrado: no Brasil, os quatro maiores bancos detém 78% do estoque de empréstimos.

Com o aumento da concorrência, o Banco Central espera acelerar a queda dos juros praticados pelos bancos no Brasil, elevados na comparação com outros países.

Em fevereiro, os juros médios cobrados pelos bancos nas operações para as pessoas físicas somaram 57,7% ao ano. Das empresas, o juro bancário médio (recursos livres) cobrado pelos bancos foi de 22,2%. Mas há modalidades com custo superior a 300% ao ano, como cheque especial e cartão de crédito rotativo.

Essas taxas permanecem altas apesar do recuo da Selic nos últimos meses. Atualmente, a taxa básica de juros definida pelo Banco Central é a menor da história: 6,5% ao ano.

A chefe-adjunta do Departamento de Normas do BC, Sílvia Marques, avalia que as fintechs terão potencial de impactar as taxas bancárias principalmente para as pessoas físicas e pequenas empresas, se utilizando de novidades tecnológicas para atrair os clientes mais jovens.

"Estamos com expectativa bem positiva. As novas gerações não querem mais relacionamento com os bancos", afirmou ela.

Em sua visão, pessoas físicas que não formaram um "perfil de crédito" (nota com base em operações feitas anteriormente) ao longo do tempo, e empresas que não tem documentos contábeis oficiais, tendem a optar pelo modelo das fintechs.

A Creditas, por exemplo, é uma fintech que oferece crédito com garantia por meio de uma plataforma digital. Para o fundador da empresa, Sergio Furio, a redução de taxas é possível porque as fintechs têm uma estrutura mais enxuta que os grandes bancos.

Ele lembra que durante anos os bancos investiram na expansão de agências como caminho para ganhar espaço no mercado de crédito. Na visão dele, o cliente hoje entende que uma solução digital amigável traz mais comodidade do que uma agência em cada esquina.

Novas tecnologias
Além do impacto nas taxas de juros bancárias, as fintechs também podem ganhar espaço cobrando mais barato nas tarifas por produtos e serviços, por exemplo. O diretor da ABFintechs, Diego Perez, também avalia que há um "excelente espaço" para crescimento das fintechs no Brasil.

"Têm surgido no mercado novas tecnologias que trazem ganho de eficiência tremendo, plataformas digitais, e os usuários finais são pessoas conectadas, com smartphones. Tecnologias, antes restritas aos grandes grupos com capital, hoje se tornam mais acessíveis", afirmou.

A maior parte das empresas ligadas à ABFintechs, até o momento, está concentrada no setor de meios de pagamentos, crédito, controle financeiro e seguros.

Mas há empresas atuando também em investimentos, gestão financeira, câmbio, "crowdfunding" (financiamento coletivo, as famosas "vaquinhas" virtuais), criptomoedas , "blockchain" (corrente de blocos, em tradução literal), "funding" (financiamento de projetos); renegociação de dívidas e banco digital, entre outras.

Risco maior
Se por um lado as fintechs podem ofecerer a investidores possibilidades de retorno mais alto, o risco também é maior porque as operações feitas por elas não devem contar, mesmo após a regulamentação, com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), presente nas aplicações feitas nos bancos. O FGC é um tipo de seguro que garante aplicações de até R$ 1 milhão contra eventual calote de bancos.

"A garantia [nas operações feitas por fintechs] é contratual. O que normalmente acontece ao longo do tempo é que os próprios investidores vão conhecendo o modelo de análise de crédito da plataforma e também conhecem o tomador [do crédito]", disse explicou Sílvia Marques, do BC.

Segundo Diego Perez, da ABFintechs, o investidor pode associar um seguro ao investimento, como forma de ter mais segurança, mas, neste caso, o retorno também acaba sendo menor.

Fonte: G1 Globo | 26/04/2018

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